pm

Pinturas Murais

O PROGRAMA JESUÍTICO

A ornamentação de uma igreja é formada pelo mobiliário: altares da nave e da capela-mor arcaz de sacristia para os paramentos – e sobre ele um nicho. A pintura é a última a ser executada, sobre o mobiliário ou em tábuas sobre as paredes com posterior douramento.

Em uma capela ou mesmo em uma igreja, para se fazerem os altares em madeira esculpida, há uma prática de executar antes um altar em perspectiva, ou seja, desenhar na parede o que depois será um altar esculpido e dourado.
As igrejas dos colégios jesuíticos possuem arco triunfal com altares, mesa de comunhão, altar-mor esculpido na capela-mor e, ainda, altares em capelas laterais. Esta Capela tem o retábulo-mor em madeira sobre a taipa e o coroamento (parte superior) imita uma concha. A mesa de comunhão apresenta raras esculturas de cariátides. Na sacristia, arcaz, há um oratório esculpido e dourado e um nicho com madeiras pintadas.
Nas capelas mais singelas, os jesuítas recorrem ao que é característico na arquitetura portuguesa: o uso das paredes largas. Nelas, em geral, estão os nichos para se colocar imagens de santos, pias para água benta e, na sacristia, armário para guardar os vasos sagrados. É isto que ocorre aqui em São Miguel, além da solução para o confessionário, utilizando uma abertura da porta entre a sacristia e capela-mor. Existe, ainda, um nicho no lado exterior da sacristia. A tudo isso chamamos de programa construtivo. Nos conjuntos mais completos – igreja, colégio e residência – chama-se modo nostro.
AS PINTURAS PARIETAIS
A Capela de São Miguel é uma das raras construções seiscentistas que conservaram esta visualidade com o uso dos alpendres, das tábuas dos altares sobre a taipa, da sacristia completa e do uso de nichos nas paredes com pinturas – formando um conjunto único do programa jesuítico para as capelas dos aldeamentos indígenas. Por isso é tão valorizada!
Nicho da sacristia

Nicho da sacristia

O fato mais extraordinário, porém é que esse conjunto manteve ao longo dos séculos esse processo construtivo ornamental, que por alguma razão ficou em seu estado original, de gênese. Os altares do arco triunfal, estes aqui ao lado, permaneceram como altares em perspectiva. Não longe daqui, em Guararema, também o altar-mor da Capela da Freguesia da Escada ainda está lá, feito em madeira lisa, sem relevos, constituindo-se dos mais antigos testemunhos da maneira de construir altares jesuíticos, tanto em Portugal, como no Brasil.
As pinturas em uma igreja costumam ser em tinta a óleo sobre tela ou madeira, e representam os santos. Os pintores estão organizados em três categorias: os primeiros são quase sempre os religiosos, que pintam com tinta a óleo sobre tela – segundo o gosto da época, maneirista ou barroca. Na segunda categoria estão os artesãos que pintam os ornamentos como flores, ramos e brutescos (pequenas figuras), sobre madeira e na técnica da têmpera, espécie de guache. Na terceira, surgem os ornamentos parietais – que podem ser apenas padrões geométricos aplicados sobre paredes em forma de barrados, que se estendem por toda a capela ou igreja. Dentre os artesãos que pintam as paredes há aqueles com talento para a reprodução de desenhos retirados de gravuras – missais, bíblias ou mesmo modelos em folhas soltas. São eles que executam os altares em perspectiva.
Resquícios de barrado da parde com padrões geométricos existentes na Capela

Resquícios de barrado da parde com padrões geométricos existentes na Capela

Esses altares em perspectiva poderiam ou não permanecer nas paredes depois que fossem executados os altares esculpidos e dourados. Seriam na origem riscos ou modelos para os de madeira. Sendo esta uma capela de aldeamento, mais simples, bastaria o altar-mor ser de madeira: os dois do arco triunfal poderiam ter sido desenhados para serem permanentes. Isso ocorreu também nas capelas jesuíticas do altiplano andino e nas missões do Norte do México. Os altares em perspectiva eram repintados, em geral com cores escuras para as linhas, vermelho para o fundo e um branco para realçar. Aqui em São Miguel há vestígios de repinturas assim.
Pinturas da Capela de São Miguel

Pinturas da Capela de São Miguel

DATAÇÃO E REFERENCIAIS
A Capela de São Miguel tem um marco importante que é a datação na verga da porta de entrada: 1622. Data posterior à primitiva Capela de Anchieta que aqui existiu, mas que também não coincide com a data dos altares em perspectiva. O corte da madeira e os nichos ali escavados na estrutura da parede de taipa, comprovam que as aberturas foram feitas depois.
Verga da porta com a data de sua fundação

Verga da porta com a data de sua fundação

A datação real deve-se dar pela comparação entre os estilos dos modelos de outros altares esculpidos que existiam na região, em especial as colunas – que são mais visíveis. São eles, em São Paulo, os altares da igreja do Pátio do Colégio, e das antigas capelas de Embu e de Guarulhos (sacrário). Todos com características do estilo nacional português, a julgar pelas colunas torsas com folhas de videira e cachos de uvas sobre a parte saliente, e gavinhas nos sulcos. Há uma simplificação dos capitéis (alto da coluna): nos referenciais mencionados são compósitos e não existem pássaros. Estes aqui se aproximam mais das colunas da cidade de Embu: capitéis com folhas hirtas, retas, abaixo do acabamento jônico.
Ora, sabe-se que os altares de Embu são de datação anterior à construção da igreja ali, que é do final do século 17. Mais ainda, o sacrário de Guarulhos e as colunas do Pátio do Colégio são do segundo ou terceiro quartel do século 17. Portanto, pode-se concluir que aqui os altares em perspectiva só foram executados por volta de 1670, ou seja, 50 anos depois da data da reconstrução desta capela (1622). Teriam sido aqueles os modelos? É possível, pois na região (data provável de 1665) já existia um altar esculpido na Fazenda Santo Alberto, em Mogi das Cruzes, com características maneiristas no corpo do retábulo. Esse altar, no entanto, tem colunas esculpidas com estrutura e motivos muito semelhantes àqueles pintadas nas paredes de São Miguel.
Detalhes da coluna e do capitéu

Detalhes da coluna e do capitéu

Agora que temos a datação provável, podemos imaginar que quem o executou, sob a orientação de um padre, certamente foi um indígena habilidoso. O programa pictórico pode não estar completo, pois compreendia uma pintura inferior, que menciona a vista de uma cidade e a continuidade em um barrado geométrico que cobriria parte das paredes laterais. Da mesma forma está sugerido na Capela de Santo Antônio, em São Roque, que é de 1681, pois provavelmente teriam sido dois executores, um de desenho em perspectiva e outro de geométrico.
O SIMBOLISMO
Aqui a perspectiva fingida, vertical, da parede, enfatiza o aspecto arquitetônico do altar pintado com as quatro colunas. Acima, os florais mostram os modelos retirados das talhas vazadas, à maneira da América Espanhola. As colunas mostram a videira, o símbolo do Cristo ao qual devem os cristãos estarem unidos. Os cachos de uva são a alegria da videira, do conhecimento por meio do vinho, e simbolizam a lembrança do sacrifício de Cristo e, portanto, da aliança do Homem com Deus.
O nicho escavado na parede é a parte física do retábulo para se colocar o santo, neste caso, o São Miguel à direita, e a Imaculada Conceição, à esquerda. Dentro dos nichos, em continuidade à simbologia da videira, o resplendor da Eucaristia, como o Sol da Justiça, tão usado pelos jesuítas; dentro do arco, rolos de nuvens envolvem as faces do Sol e da Lua – elementos da natureza, da luminosidade, da união dos opostos, do dia e da noite, do masculino e do feminino. A videira sustenta os acontecimentos do mundo celeste e de sua seiva emana a luz do Espírito.
Detalhe do nicho

Detalhe do nicho

 

A PRESERVAÇÃO
Estas pinturas foram conservadas pelos franciscanos, depois da expulsão dos jesuítas em 1759. Frei Mariano da Conceição Veloso alteou a cumeeira da capela; o mesmo ocorreu no início do século 20, com a colocação dos tijolos acima das pinturas. Eles possivelmente eram recobertos em parte com tábuas.
O programa franciscano de ornamentação é diferente do jesuítico: usa paredes sem nichos e traz linhas mais simples, como já estava em voga àquela época. Os altares franciscanos, quando foram então colocados nos cantos das paredes, alteraram a forma como se via a frontalidade da Capela. Quebraram a forma ortogonal daquele espaço do presbitério, definido a partir da mesa da comunhão. A mesma coisa aconteceu na vizinha capela da Freguesia da Escada, em Guararema. Altera-se assim o modo como os jesuítas tinham concebido para os fiéis encontrarem as simbologias da religião: de forma direta.
Os altares franciscanos tiveram um precioso papel para preservar as pinturas, pois elas foram só um pouco danificadas pela colocação da estrutura dos altares. Parte das pinturas foi encontrada em 1939, quando se restaurou a Capela sob supervisão do arquiteto do IPHAN, Luis Saia. Ele mandou fotografar as pinturas, mas não as divulgou, pois não se chegou a uma solução para sua visibilidade permanente.
A REDESCOBERTA E RARIDADE
Em 2007 as pinturas parietais foram redescobertas; em 2009, os altares foram removidos para que elas fossem estudadas em sua totalidade. Foram consolidadas as paredes de taipa e feita uma limpeza do pó acumulado pelos séculos.

 

Pinturas escondidas sob os altares

Pinturas escondidas sob os altares

Visão das pinturas com o altar desmontado

Visão das pinturas com o altar desmontado

Os altares franciscanos em madeira escura foram reestruturados. Em 2012, optou-se por encerrar as pinturas novamente e abri-las apenas em duas ocasiões anuais.
Outros casos semelhantes já tinham ocorrido, sendo o da igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Anchieta, no Espírito Santo, o mais bem solucionado como restauro. Removeu-se todo o altar-mor em madeira em estilo eclético e decidiu-se mostrar os desenhos geométricos pintados dos barrados laterais. Isso também ocorreu no Seminário de Belém, em Cachoeira, na Bahia, e na residência jesuítica de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, ambos ainda em prospecção.
No Cone Sul não existem outros exemplos de altares em perspectiva, já que as construções eram em pedra e foram danificadas pelas intempéries após o abandono das missões jesuíticas. Isso fez perder todas as pinturas que pudessem ter existido. Nas missões de Chiquitos, na Bolívia, estão os mais belos templos com pinturas parietais que recobrem toda a estrutura de madeira, com parte em reboco. Na Bolívia, Peru, Equador e região andina, devido ao clima seco, as comunidades conservam com orgulho magníficas capelas, como a chamada Capela Sistina das Américas, na Bolívia, com suas paredes internas totalmente desenhadas como certamente devem ter sido as nossas aqui no Planalto do Piratininga.
Percival Tirapeli, professor doutor titular em História da Arte Brasileira pela Universidade Estadual Paulista, 2012

Após o restauro, completo registro fotográfico e encerramento das pinturas, está em elaboração um projeto que permita a movimentação das tábuas do altar para a sua visualização, sem que haja riscos a preservação do patrimônio.

Imagens das pinturas murais da Capela de São Miguel e de seu restauro
Fotos de Alexandre Galvão e Natalia Moriyama