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O Restauro

O primeiro restauro da Capela de São Miguel Arcanjo foi realizado pelo Iphan, em 1939/40, quando o arquiteto Luis Saia, diretor regional do Sphan (antigo Iphan) em São Paulo, reconheceu o valor histórico da construção e passou a se empenhar no trabalho de revitalização da igreja, na época bastante descaracterizada e quase destruída.

Pela primeira vez em mais de três séculos de existência, a Capela foi alvo de um minucioso trabalho em busca de suas origens e o Sphan empreendeu uma ampla pesquisa que recuperasse a história dessa casa religiosa. Após análise das plantas e dos materiais construtivos, Saia traçou um programa de obras que buscava reproduzir ao máximo as características originais do imóvel. Baseado nesses estudos, o arquiteto coordenou a restauração. Ele preocupou-se em manter as pinturas originais da Capela, recompor as obras primitivas e resgatar algumas de suas peças e ornamentos de madeira vendidos a antiquários, além de revitalizar a área ao redor da igreja.

Em 2006, a Diocese de São Miguel Paulista e a Associação Cultural Beato José de Anchieta (ACBJA) realizaram um novo restauro, que não só revitalizou sua arquitetura histórica, mas também revelou e recuperou vários elementos artísticos e ornamentos que até então estavam escondidos ou deteriorados pelo tempo. Entre eles estão as Pinturas Murais feitas em taipa de pilão, encontradas nos altares laterais da Nave Principal, exemplares únicos da arte jesuítica e do período colonial paulista, quase sem precedentes neste estado de conservação.

 

Levantamento e Projetos:

Foi executado um minucioso cadastramento do edifício, levantando toda sua geometria, seus espaços, as distorções de suas paredes e estruturas que permaneceram monitoradas. Para formar as ideias e soluções propostas foi realizada uma pesquisa histórica e iconográfica e uma pesquisa arqueológica, que abrangeu não somente a área da Capela mas também toda praça envoltória, Durante a pesquisa foi também utilizado o recurso de mapeamento geofísico, levantando através de radar 24 quilômetros lineares de perfil de solo.

Mapeamento geofísico

Mapeamento geofísico

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Coberturas:

Foram catalogadas e substituídas grande parte das telhas da cobertura, um modelo semelhante foi especialmente fabricado para a restauração do telhado. Durante a queima das peças uma atenção especial foi dada a colocação das telhas no forno, para que com isso se conseguisse um aspecto visual próximo ao existente.

A cobertura do alpendre frontal foi conservada com as telhas  originais, que já não são mais tão efetivas na retenção da umidade, mas que por estarem em local aberto puderam ser mantidas como testemunho.

O acabamento dos beirais como “rendilhado paulista” foi recomposto e as peças de madeira, apodrecidas ou danificadas pela presença de cupins foram substituídas por peças de mesma dimensão, mas com acabamento diferenciado das originais.

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Estruturas de Madeira:

Os esteios, ou pilares da Nave e outras peças de madeira em contato com o solo foram parcialmente substituídas e receberam tratamento imunizante, as substituições seguiram o mesmo padrão de cortes e encaixes existentes.

Nas originais, ainda em peças lavradas, todo esforço para manter a própria peça foi aplicado, como é o caso dos esteios da Nave, que tiveram suas rachaduras e vazios preenchidos com resina, recuperando suas características estruturais e mantendo sua esbelteza e seu aspecto original.

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Paredes em Taipa, Adobe e Pau-a-pique:

Todo o revestimento, interno e externo foi inspecionado e mapeado, as áreas com desplacamento ou desagregação foram refeitas com argamassa de aspecto, características e traços similares as existentes, com informações obtidas através de testes e ensaios em laboratório.

As trincas e fissuras das paredes de taipa foram consolidadas e tratadas utilizando o mesmo tipo de solo e as paredes receberam pintura a cal, compatível com a sua conservação.

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Portas e janelas de madeiras:

Após as prospecções iniciais as esquadrias de madeira tiveram a sua pintura removida até a primeira camada, as partes danificadas foram recompostas com madeira de mesma característica, identificada em ensaio botânico do IPT.

Após a sua recomposição, receberam acabamento em tinta especialmente fabricada na mesma cor encontrada, tudo do madeiramento recebeu tratamento e combate contra cupins, o tratamento se estendeu também ao solo, tendo sido danificado e removido uma colônia existente em uma árvore na lateral da Capela.

Outro combate efetivo foi contra as formigas que haviam nas paredes dos fundos exterminadas com a utilização de iscas.

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Restauração dos Elementos Artísticos:

Sob o comando do restaurador Julio Moraes foram executados os trabalhos de restauro dos elementos artísticos, uma das maiores surpresas na restauração da Capela.

No início dos trabalhos a expectativa quanto a restauração era bastante pequena, pois os altares tinham sido raspados e assim como a estrutura de madeira, vinham recebendo a aplicação de óleo queimado na intenção de uma suposta proteção, somado a isso a quantidade de fuligem e sujeira era enorme.

Com o avançar dos trabalhos e a delicada tarefa da limpeza e consolidação dos vestígios de  tinta existentes, percebemos que muito da informação das pinturas dos altares podiam ser recuperadas.

Na desmontagem de parte do altar lateral para sua restauração, foi encontrada na parte de trás uma pintura mural executada diretamente no revestimento da taipa. A construção do altar havia sobreposto e preservado a pintura ainda mais antiga. É possível afirmar que a descoberta de tais pinturas contribui muito para recentes estudos a cerca da história da arte, principalmente da arte colonial paulista e é, o único exemplo desse tipo de expressão.

Com o partido de uma restauração com caráter conservativo, a restauração dos altares se desenvolveu até o ponto em que as informações resgatadas permitiram, o resultado superou todas as expectativas e a continuidade da reintegração das imagens ou a sua conservação ainda esta sendo discutida.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ajustes de cotas do terreno:

Com a urbanização e as sucessivas reformas das vias próximas e da praça, o terreno entorno da Capela foi sendo aterrado chegando cobrir até 60 cm da base das paredes externas. Com os dados coletados na arqueologia, sondagens e pesquisa histórica, foi possível comparar às cotas existentes no terreno em 1938 e executar a remoção de todo o aterro, restabelecendo as cotas originais.

Tal beneficio se somou a reforma da Praça Pe. Aleixo Monteiro Mafra, que retirou interferências visuais e de usos nocivos à Capela valorizando o monumento.

É desta ação que resulta o novo adro, restabelecendo a amplitude que lhe é digna e possibilitando perceber a condição geográfica de destaque da construção, principalmente em relação ao rio Tietê, aspecto importante de sua história.

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Soluções de destaque no projeto

Entre diversa soluções implantada no projeto merecem nosso destaque:

Restauração das Estruturas de madeira:

Com a pintura na cor branca, verificada nas prospecções e confirmada nas fotografias de 1940 A solução deixou os ambiente internos mais claros e valorizou seus elementos artísticos.

 

 

 

 

 

 

 

Canaleta de captação de águas pluviais:

Para solucionar o problema de infiltrações e captação das água de chuva junto as paredes de taipa, se pensou em construir uma grelha metálica no piso.

Após terem sido achados vestígios de um calçamento na pedra de varvito no entorno da Capela, foi executado um novo calçamento que aproveitou as pedras retiradas de seu interior, as pedras foram reforçadas por uma placa de concreto armado fundida junto ao varvito e aplicadas sobre pilaretes sem a execução do rejunte, tendo assim um piso auto drenante, descartando a utilização de um elemento estranho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A nova Tijoleira:

No piso interno foi aplicada uma nova tijoleira, piso encontrado em pequenos trechos abaixo das lajes de varvito que estavam muito danificadas. Alem do desenvolvimento da peça de forma artesanal, em uma olaria centenária da região de Itu, onde o dono ainda guardava as formas em madeira utilizada pelos avós, o piso foi aplicado como um piso flutuante, assentado de madeira intertravada sobre a camada de tecido geotextil que preservou o restante do piso original, alem de manter intacto o chamado pacote arqueológico para futura pesquisas.

Por fim a certeza de que a restauração da Capela de São Miguel resgata parte de sua história e nos insere em seu tempo futuro. Quando foram recebidos os novos tijolos, encontramos no lote, peças que haviam sido ornamentadas pelo artesão durante o processo de fabricação atual, os funcionários da olaria haviam participado de palestras e treinamento onde além do aspecto técnico, também lhes foi apresentado o histórico da capela, nos surpreendendo então o motivo aplicado a peça.

Quando a alguns dias concluíamos a restauração do piso da sacristia, que tinha peças de cerâmica originais cobertas com um piso cimentado nos deparamos com uma peça também esculpida, ambas são ações espontâneas, separadas por duas ou três centenas de anos, mas a todos ficou a sensação de que a restauração da Capela de São Miguel encurtou todo este tempo.

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